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XVII Domingo do Tempo Comum (C)
Gênesis 18, 20-21.23-32; Colossenses 2, 12-14; Lucas 11, 1-13
Jesus orando
«Ele lhes disse: ‘Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja teu Nome, venha teu Reino’.»
Como seria o rosto e toda a pessoa de Jesus quando estava imerso na oração, nós podemos imaginar pelo fato de que seus discípulos, só de vê-lo orar, se enamoram da oração e pedem ao Mestre que os ensine também a orar. E Jesus os atende, como ouvimos, ensinando-lhes a oração do Pai Nosso.
Também agora queremos refletir sobre o evangelho inspirando-nos no livro do Papa Bento XVI sobre Jesus: «Sem o arraigo em Deus – escreve o Papa –, a pessoa de Jesus é fugaz, irreal e inexplicável. Este é o ponto de apoio sobre o qual se baseia este livro meu: considera Jesus a partir de sua comunhão com o Pai. Este é o verdadeiro centro de sua personalidade».
Os evangelhos justificam amplamente estas afirmações. Portanto, ninguém pode contestar historicamente que o Jesus dos evangelhos vive e atua em contínua referência ao Pai celestial, que ora e ensina a orar, que funda tudo sobre a fé em Deus. Se eliminarmos esta dimensão do Jesus dos evangelhos, não resta absolutamente nada d’Ele.
Deste dado histórico se deriva uma conseqüência fundamental, isto é, que não é possível conhecer o verdadeiro Jesus se se prescinde da fé, se se realiza uma aproximação d’Ele como não-crentes ou ateus declarados. Não falo neste momento da fé em Cristo, em sua divindade (que vem depois), mas de fé em Deus, na acepção mais comum do termo. Muitos não-crentes escrevem hoje sobre Jesus, certos de que são eles os que conhecem o verdadeiro Jesus, não a Igreja, não os crentes. Longe de mim (e creio que também do Papa) a idéia de que os não-crentes não tenham direito de tratar de Jesus. Jesus é «patrimônio da humanidade» e ninguém, nem sequer a Igreja, tem o monopólio sobre Ele. O fato de que também os não-crentes escrevam sobre Jesus e se apaixonem por Ele não pode senão agradar-nos.
O que eu desejaria mostrar são as conseqüências que se derivam de um ponto de partida assim. Se negarmos a fé em Deus ou se prescindirmos dela, não se elimina só a divindade, ou o chamado Cristo da fé, mas também o Jesus histórico tout court, não se salva sequer o homem Jesus. Se Deus não existe, Jesus não é mais que um dos muitos iludidos que orou, adorou, falou com sua sombra ou com a projeção de sua própria presença, segundo Feuerbach. Mas como se explica então que a vida desse homem «tenha mudado o mundo»? Seria como dizer que não foram a verdade e a razão que mudaram o mundo, mas a ilusão e a irracionalidade. Como se explica que este home continue, a dois mil anos de distância, interpelando os espíritos como nenhum outro? Pode tudo isso ser fruto de um equívoco, de uma ilusão?
Não há mais que uma via de saída a este dilema, e é preciso reconhecer a coerência dos que (especialmente no âmbito do californiano «Jesus Seminar») a tomaram. Segundo aqueles, Jesus não era um crente hebreu; era no fundo um filósofo ao estilo dos cínicos; não pregou um reino de Deus, nem um próximo final do mundo; só pronunciou máximas sapienciais ao estilo de um mestre Zen. Seu objetivo era despertar nos homens a consciência de si, convencê-los de que não tinham necessidade nem d’Ele nem de outro Deus, porque eles mesmos levavam em si uma faísca divina. Mas estas são as coisas que a Nova Era prega há décadas!
O olhar do Papa foi adequado: sem o arraigo em Deus, a figura de Jesus é fugaz, irreal; eu acrescentaria contraditória. Não creio que isso deva entender-se no sentido de que só quem adere interiormente ao cristianismo pode entender algo dele, mas certamente deveria alertar com relação a achar que somente situando-se fora deste, fora dos dogmas da Igreja, se pode dizer algo objetivo sobre ele.
[Tradução realizada por Zenit.]